Lentidão e algoritmos

Em um texto que se tornou referência, Gillespie descreve e analisa o espaço que os algoritmos ocupam, atualmente. Uma das definições: “Os algoritmos não são necessariamente softwares: em seu sentido mais amplo, são procedimentos codificados que, com base em cálculos específicos, transformam dados em resultados desejados.” Em consideração técnica, poderíamos definir algoritmos como seletores de informação.

O texto de Gillespie, no entanto, ultrapassa a técnica para buscar a relevância. Navega a partir das considerações de Chris Anderson, pondo “os algoritmos como elemento central do novo ecossistema informacional”, e – no que nos interessa mais -Theodore Striphas, que chama atenção para as “formas culturais que emergem às suas sombras.”

Uma dessas formas é a digissexualidade. Em 2018, o Japan Times noticiou o casamento entre um japonês e Hatsume Miko – um holograma. Quando a Veja noticiou, o termo foi definido como “pessoas fissuradas em tecnologia.”

Como a fotografia entra, nessa história? Hoje, pela tangente; enquanto arte. O uso do termo “sombra”, por Striphas, tem algo de incontornável e totalizante. Sombras preenchem o mundo sem que se possa embarreirá-las. O fotógrafo alemão Michael Wesely desenvolveu uma poética que põe em cena, justamente, a totalização – destrinchando suas possibilidades.

Seu projeto que se chama Câmera Aberta: “Feita com câmeras que ele mesmo constrói, a técnica de captação de imagens consiste em deixar o obturador da câmera aberto por um longo período, expondo o mesmo negativo para gerar uma única imagem”, como descreve a Revista Zum. O resultado são fotos que conjugam diferentes momentos do tempo em uma foto singular. Um dos destaques vai para a ausência de pessoas e meios de transporte, elementos efêmeros no tempo.

Staatsbibliothek, Michael Wesely

Um modo de colocar em perspectiva a seleção de informações. Os algoritmos compõem o mais recente rol de preocupações de pessoas, estados, instituições. Mas eles são criações humanas, inspiradas em tal condição. Uma das reflexões que pode integrar esse rol é sobre a pregnância temporal e relevância afetiva que esses novos agentes podem desempenhar. A arte, e a fotografia com suas particularidades de ténica e abrangência, podem colocar aquelas sombras sob perspectiva – reduzindo a pressa pela escolha do par perfeito, por exemplo.

https://www.japantimes.co.jp/news/2018/11/12/national/japanese-man-marries-virtual-reality-singer-hatsune-miku-hologram/#.XQb8xFxKjIU

Sem dúvida, isso é só o começo!

Será mesmo que o fotógrafo não vai mais precisar ir a campo produzir a fotografia, assim como alguns textos produzidos por robô-jornalista?

Trata-se de uma tendência de produção jornalística nos grandes jornais diários no mundo como o The Guardian, o Bloomberg News e o Associated Press. Até porque vivemos a era sociotécnica, do jornalismo automatizado, da produção híbrida entre homem e máquina.

A comunicação sempre foi um campo muito atrelado às ferramentas tecnológicas, e é impossível desconsiderar o papel dos não-humanos, dos intermediários e dos híbridos na dinâmica de produção do jornalismo. Não seriam os softwares NLG mais uma inovação, assim como foi a prensa de Gutemberg, o rádio, a televisão e a internet em outros tempos? (D’ANDREA, 2017, p.15)

Foto: Google Imagens

Diferente do texto jornalístico e do jornalista, o fotógrafo e a fotografia possuem relações produtivas mais complexas, porque vai além da relação entre o suporte técnico/tecnológico e o homem, há nesse caso um diálogo do ser humano com o espaço físico, com o lugar, com as pessoas e com o tempo em que as coisas acontecem. Por enquanto, a única invenção robótica que consegue fotografar substituindo o homem é o robô Eva (criado pela empresa Service Robots), que utiliza a tecnologia de reconhecimento facial para identificar as pessoas antes de pergunta se gostariam de tirar foto. Eva está fazendo muito sucesso fotografando casamento no Reino Unido.

Foto: Service Robots

Vejo, depois deste exemplo, uma grande possibilidade do foto-jornalista também ser substituído por um futuro robô-fotógrafo. Mas continuo achando complexa a dinâmica de um robô dentro do tempo-espaço social, é preciso uma relação direta com a potência da ação no aqui agora do fato registrado (fotografado), porém muito possível de acontecer, ou melhor já está acontecendo, como “uma perspectiva mística e distópica frequentemente evocada pela ficção científica”.(D’ANDREA, p.13)  

Fica o alerta aos profissionais humanos que se comportam como robôs, sem dúvida, estes profissionais serão substituídos por robôs de verdade. Ou será que os profissionais robôs já existiam nas mentes dos humanos e a gente não havia percebido?

*As referências que nos inspiraram podem ser encontradas em BIBLIOGRAFIA

Esta é só a ponta do Iceberg!

Foto: Pixabay

É interessante pensar sobre a produção diária de fotos, selfies e conteúdos em imagens que são deixadas nas redes e como se dá essa interação com os fenômenos visuais. Sem dúvida as imagens estão presentes em nossa atualidade tecnológica mais que em qualquer outra época, e particularmente a fotografia tem uma contribuição muito importante dentro desse processo. Devemos isso ao fato de que atualmente temos um grande acesso a diversas imagens desconsiderando a finalidade do uso a que se destinam. Podemos considerar os diferentes meios por onde perpassam esta circulação de imagens, tais como as documentações pessoais, na área profissional, publicidade, enfim é notável que a fotografia tem um lugar fundamental na sociedade.

Basta acessar o Instagram ou o Facebook. Você sabe do que estou falando.

Foto: Pixabay

De fato, gostaríamos de expor todos os nossos registros nas plataformas de relacionamentos, sejam eles quais forem? Estamos deixando rastro de nossa própria vida cotidianamente, e a contribuição para essa vigilância é totalmente voluntária.

Pensando sobre isso, F.Bruno traz na citação abaixo um pouco do seu ponto de vista sobre este novo contexto social digital, que suga os dados dos seus usuários distraídos:

“Quando uso um aplicativo no Facebook, por exemplo, posso querer apenas me divertir e não necessariamente criar um rastro que indica um interesse que venha alimentar os bancos de dados publicitários. Neste contexto, somos emissores não apenas no sentido declarativo; emanamos “pacotes de informação” em cascata que alimentam bancos de dados de visibilidade variável. Daí deriva uma extrema ambiguidade quanto aos aspectos voluntários e involuntários do rastro digital. Quanto mais se deseja inscrever presenças na rede, mais rastros involuntários são deixados.” (BRUNO, 2012, p. 689)

Fica a dica para todos nós, já que estamos conectados na maior parte do tempo, e nada do que compartilhamos na rede é em vão, sugiro voltar no tempo, não tão distante, e relembrar uma brincadeira que viralizou no início de 2019 conhecido como #10YearsChallenge (desafio dos 10 anos, em inglês), que faz uma comparação da foto atual e outra foto de 10 anos atrás.

Criada pelo designer Chris Messina no Twitter, em 23 de agosto de 2007, a hashtag trouxe uma forma de agrupamento de mensagens que permite a busca de conteúdos por temas específicos nas redes sociais.

Mas será que isso foi apenas uma mera brincadeira inocente, de acesso à memória, que permitia às pessoas relembrar como elas eram há 10 anos, ou podemos considerar isso mais uma tática de vigilância invisível que distraem usuários a partir de recursos técnicos estimulam a felicidade?

Dados da matéria do site Agenciaslim, mostram que “há mais de 4 bilhões de pessoas conectadas à rede, enquanto estimativas recentes apontam que são, em média 7, 6 bilhões de seres humanos em todo o mundo. Falando diretamente em números, em 2018 havia 4,021 bilhões de pessoas online (53% de todas as pessoas do planeta), vale ressaltar que houve um aumento de 7% em relação ao ano anterior. Esses dados mostram que os indivíduos estão cada vez mais inseridos no mundo da internet. E principalmente fazendo uso de mídias sociais”.

O uso da hashtag como marcador para o acesso à acontecimentos passados trouxe a comparação entre duas fotografias tiradas em tempos distantes: passado e presente. Este evento não foi em vão e sua finalidade não foi possibilitar às pessoas o acesso à memória afetiva, pelo contrário, foi permitir o mercado ter acesso a informações que vão além da sua memória, do seu campo de visão, da sua emoção saudosista.

O desafio #10yearschalleng foi criado com a finalidade de coletar dados faciais para treinar algoritmos de reconhecimento facial que consigam identificar o passar do tempo durante o envelhecimento de pessoas fotografadas e, ao mesmo tempo, colher informações dos seus contextos, de suas narrativas, de suas origens, dos produtos consumidos nos dois tempo fotografados, de suas evoluções/involuções financeiras, amigos e seguidores. Na visão de Deleuze, essas informações eram como rastros deixados pelo caminho, permitidos pelos seus usuários, que possibilitam o setor privado disparar conteúdo, por exemplo: audiovisual, livros, eletrônicos, eletrodomésticos, viagem, treinar outros tipos de algoritmos, e também controlar outros tipos de mercado e público alvo, uma dimensão que os usuários do desafio #10yearschallenge não fazem ideia do seu poder de alcance e nem que estão inseridos. Poderíamos até dizer, produzindo dois efeitos na recepção: um de imersão na memória fotográfica e outro de permissão invisível de acesso e coleta dos dados fotografados.

Foto: Google imagens

A constante busca por aparelhos mais avançados está nos tornando cada dia mais portáteis e os smartphones multifuncionais e suas câmeras integradas permitem que os indivíduos façam inúmeras imagens facilitando sua circulação. Mas, dentro de toda essa captura de imagens se têm um efeito de vigilância e controle embutido nessa ação.

O que contribui para este controle é a inserção de novas tecnologias, que reforçam a visibilidade permanente nestas plataformas e isso traz uma grande semelhança com o que é feito pelo panóptico e sem nos darmos contas estamos às cegas comprando a cultura de uma sociedade de controle por meio das imagens e a forma que interagimos nas redes conectadas.

A prática do panóptico da contemporaneidade é colocada de forma sutil na vida dos usuários conectados e no ato de aceitarmos voluntariamente esta vigilância, cedemos todos os nossos dados, ao compartilhar fotos, localização e informações sobre cada passo que deixamos nas redes sociais e nisto, permitimos que sejam rastreados e comercializado. Estamos portando nossas próprias celas de vigilância, permitindo que elas sejam invadidas e controladas, quando partimos do pressuposto de que ao mostrar que estamos bem ou que tudo está “sob controle” nas redes sociais, estamos garantindo nossa privacidade.

Para Foucault (2009), em Vigiar e Punir: nascimento da prisão, “a visibilidade é uma armadilha”.

Foto: Pixabay

Estamos sendo usados para alimentar os algoritmos que modulam as ações do mercado, fazendo o modelo de negócio das plataformas digitais acontecer com eficiência, inteligência e lucratividade. Deleuze (1990) complementa dizendo que “as sociedades disciplinares são aquilo que estamos deixando para trás, o que já não somos. Estamos entrando nas sociedades de controles, que funcionam não mais por confinamento, mas por controle contínuo de comunicação instantânea”.  Vivemos a era em que a ordem é dada por quem tem o poder de ditar a dinâmica dentro da cultura dos algoritmos (Big Data), da plataformização da sociedade.

Para encerrar, fica a pergunta, será que deixamos de ser disciplinados, vigiados e controlados apenas no aqui agora (no tempo presente, no espaço físico e mental) para sermos disciplinados, vigiados e controlados pelo poder do capitalismo de dados no tempo presente, futuro e passado, no espaço físico, digital e mental?  

Por Laís de Oliveira e Lucas Cerqueira

*As referências que nos inspiraram podem ser encontradas em BIBLIOGRAFIA

Ciberativismo como instrumento de regresso político

Segundo Sérgio Amadeu da Silveira (2010), entende-se por ciberativismo todas as práticas em defesa de causas políticas, socioambientais, sociotecnológicas e culturais que acontecem no ciberespaço. Dentro dessa definição, as redes sociais hoje se configuram como principal instrumento de divulgação e discussão de ativismo, por ser uma forma de transmissão de ideias e informações pública e em tempo real. Essa facilidade de compartilhamento foi aproveitada tanto pelos grupos de militantes esquerdistas para criar uma mídia de notícias independente das interpretações televisivas e de rádio, como também foi aproveitada por direitistas para espalhar informações falsas ao seu favor.

Como apresenta Raquel Recuero em seu texto Redes Sociais na Internet (2009), a comunicação mediada pelo computador – hoje podemos interpretar os celulares também como parte integrante do “sujeito” computador – amplificou as conexões e permitiu que novas forma de comunicação surgissem. A facilidade e rapidez de envio de notícias  agora tornam-se assunto delicado, pois grupos conservadores notaram a recorrente alienação online exercida pelos internautas, que muitas vezes compartilham conteúdo sem fonte confiável, e a utilizou ao seu favor para propagarem e contratarem empresas especializadas em propagar as fake news.

As fake news como sugere a tradução literal, são notícias falsas, mas que não foram equivocadamente escritas ou feitas a partir de interpretações errôneas dos fatos. Elas possuem objetivo específico de promover uma pessoa ou um determinado grupo em detrimento da verdade sobre uma pessoa ou público alvo. Se tornaram pauta merecedora de atenção nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2017, quando Donald Trump utilizou essa estratégia para atacar a campanha da candidata Hillary Clinton.

Foto de um falso porão da Pizzagate onde supostamente aonteciam abusos de menores de idade usada para derrubar a campanha eleitoral de Hillary Clinton


Ação semelhante foi repetida em 2018 no Brasil, quando também houve eleições presidenciais, num período de descontentamento coletivo com as ações governamentais e partidos políticos alvos de críticas pela direita conservadora. Várias informações falsas foram compartilhadas para fortalecer a campanha do candidato Jair Bolsonaro que, encarecido de defesas construtivas a sua candidatura e propostas governamentais de pertinência ao crescimento social, recorreu ao uso das fake news.

Nesse cenário de pós-verdades e imediatismo no envio de conteúdo, as fotografias são apetrechos potentes para difamar e constranger os oponentes de Bolsonaro. Quando descontextualizadas, serviram de base para sustentar ataques violentos aos seus adversários. Como exemplo, houve uma fake news utilizando fotos do carnaval ocorrido no Largo da Batata de 2017, em São Paulo, para apontar como falsas as imagens do protesto #EleNão, que supostamente teria quantidade inferior à das fotos divulgadas.

Ver a imagem de origem
fonte: Pragmatismo Político

A candidata a vice presidente de Haddad, Manuela D’ávila, também foi vítima de ataques de fake news. Uma foto sua vestindo uma camisa preta foi editada para possuir a estampa “Jesus é travesti”, notícia que serviu como argumento de ataque para os eleitores e candidatos conservadores para sustentar o argumento de que o PT e os esquerdistas querem contrariar a moral cristã e os “bons costumes”, mas a verdadeira estampa da camisa trazia a frase “rebele-se”.

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fonte: perfil do Twitter @ManuelaDavila

Não sendo bastante, outra fotografia polêmica envolvendo a candidata entra em circulação: uma suposta foto de Manuela vestindo somente peças íntimas numa cama foi publicada por uma página de humor no Facebook. A imagem foi desmentida pela própria Manuela, que expôs como resposta em seu perfil do Instagram:

“Eu não tenho problemas com sexo e nem com minha sexualidade, mas tenho com fake news. Essa foto não tem nada de errado – a menos que ela seja divulgada sem autorização da mulher fotografada. Mas não sou a dona de camiseta, dessa calcinha, dessas pulseiras e tenho tatuagens”.

fonte: perfil de Instagram da Manuela D’avila



E nesse contexto Bolsonaro ganha as eleições de 2018, com argumentos que se baseiam em notícias falsas e incitações de ódio sobre minorias sociais que o povo brasileiro não tinha coragem de dizer, mas agora expressa a sua concordância por meio do voto dado ao presidente. Um momento de regresso político possibilitado e vivido pelo aproveitamento da circulação de informações falsas no ciberespaço. Por isso, é sempre importante que confiramos quais são os autores, datas e fontes das informações que compartilhamos na internet.

Texto por Suiane Souza

Fotografia sem câmera?

Hoje vivemos em um mundo tão integrado tecnologicamente que é fácil imaginar que podemos criar tudo somente através do digital. Jogos e filmes com gráficos de alta qualidade quase se confundem com a realidade. Então, com tantos recursos para criar imagens digitais, será que podemos começar a abandonar as câmeras? Essa é uma questão complexa. Pois estamos presenciando uma convergência na forma de consumir e produzir conteúdo.


O cientista americano Nicholas Negroponte apontou para o fato de que hoje está acontecendo uma transformação de átomos em bytes. Processos que antes eram feitos através de diferentes plataformas com diferentes formatos estão convergindo para o digital. Podemos dizer também que estamos presenciando a transformação de fótons em bytes. E o processo se aprofundou tanto que os fótons quase são esquecidos nessa cadeia, dando a impressão de que são puramente Bytes gerando novos Bytes. Isso acontece quando olhamos objetos e personagens altamente realistas construídos através de computação gráfica.


Personagem do jogo de PS4 “God of War”, criado através da computação gráfica.

Podemos ver outro exemplo na ciência da computação. Existe um subcampo denominado machine learning (aprendizagem de máquina), um campo de estudo que dá aos computadores a habilidade de aprender sem serem explicitamente programados, explorando a construção de algoritmos que podem aprender a partir de seus erros. Esse estudo fez com que se tornasse possível a criação de imagens artificiais incrivelmente realistas, feitas a partir de um conjunto de dados faciais disponíveis na web.


A imagem gerada pelo site thispersondoesnotexist.com, que cria rostos de pessoas que não existem através do machine learning.

Mas como disse jenkins:

“Os  velhos meios de comunicação  não estão sendo substituídos. Mais propriamente,  suas funções e status estão sendo transformados  pela introdução de novas tecnologias” (JENKINS, p. 39)

Então, muitos dados faciais utilizados pelo machine precisaram ser capturados por câmeras em alguma hora. E até os personagens e objetos criados com a mais avançada computação gráfica possuem elementos que foram capturados com câmeras, como as texturas de roupa e de materiais como madeira e pedra.

Texturas de grama para softwares 3D. Elas foram criadas a partir de imagens capturadas por câmeras.

Independente da forma como fazemos representações de imagens, em muitos delas utilizamos não só imagens capturadas por câmeras, mas também os mesmos princípios da fotografia: regras de enquadramento, iluminação, etc. Pode ser em uma história em quadrinhos, um filme live action, um desenho animado ou um ensaio fotográfico, se um personagem for visto em um enquadramento de baixo pra cima, a ideia de superioridade será atrelada a ele.


Na esquerda, Batman na HQ Trindade. Na direita, poster do filme “Batman: Cavaleiro das Trevas”

Como é explicado em um relatório de 2002 da Cheskin  Research:

“O que estamos vendo hoje é o hardware  divergindo, enquanto o conteúdo converge.”

Essa convergência transformou não só a forma de consumir os conteúdos, mas também a forma de produzir. Se uma agência de marketing precisar fazer uma propaganda para alguma empresa de alimentos, na qual frutas precisam aparecer, ela pode decidir se vai capturar as imagens com câmeras DSLR ou se vai criá-las em ambientes digitais, a partir de modelos 3D realistas. Dentro de softwares de modelagem 3D, onde podemos criar mundos inteiros e todos os tipos de objetos, todas as funções presentes em câmeras físicas (obturador, profundidade de campo, zoom, etc) estão presentes em câmeras simuladas.


Câmera do Cinema 4D, um software de modelagem e animação 3D

Além disso, muitas das próprias ferramentas de edição de imagens em softwares como Photoshop são simulações de ferramentas que antes eram utilizadas a mão, como o pincel e a tesoura.

Neste cenário, com a popularização dos equipamentos, cada vez mais pessoas produzem, utilizam e disseminam não só fotografias, mas também suas técnicas, em diferentes meios. Desde fotos tiradas em smartphones, até prints de mundos construídos no Minecraft, as produções autorais estão crescendo. Quando as pessoas assumem o controle das mídias, os resultados podem ser incrivelmente criativos.


Print de paisagem construída no minecraft (na esquerda), e foto tirada do Vilarejo grindelwald, na Suíça (na direita)

Porém, Jenkins alertou para o outro lado deste fenômeno, afirmando que “tem ocorrido uma alarmante concentração de propriedade dos grandes meios de comunicação comerciais, com um pequeno punhado de conglomerados dominando  todos os setores da indústria de entretenimento.”

A nível de produção, Imaginem que um fotógrafo tire fotos com a câmera de uma determinada empresa, mas faça o tratamento de imagem no software de outra empresa que não aceita o formato de arquivo desta câmera. Necessariamente ele terá que recorrer ao software de alguma empresa parceira da que criou a câmera. E assim também é possível de acontecer com imagens digitais criadas em softwares de modelagem 3D: um cenário digital criado no software de uma empresa privada pode não ser aberto no software de outra empresa.

A nível de consumo, o costume de olhar imagens de família, que antes era mediado por empresas que trabalham com revelação de fotos, hoje é dominado pelo conglomerado do Zuckerberg (Instagram, Facebook e whatsapp)

Tudo Isso muda a dinâmica de produção, reprodução e de consumo de conteúdo. Como disse Jenkins:

“O modo como essas diversas transições evoluem irá determinar o equi-líbrio de poder na próxima era dos meios de comunicação.”
(JENKINS, p. 43)

Quais Codecs de imagem serão mais utilizado pelos softwares privados? Quais técnicas fotográficas serão mais aceitas pelo mercado? Qual será a demanda de consumo das pessoas? Não estamos caminhando necessariamente para um mundo em que câmeras serão extintas, mas para um futuro incerto em que o jeito como utilizamos imagens será ditado pela forma como as forças mercadológicas se dispõe.

Texto por Filipe Caldas

Fotografia na rede.

Como falar de redes e ao mesmo tempo falar de fotografia? Você já se perguntou sobre a quantidade de imagens (fotografias) que são compartilhadas nas “redes” todos os dias? Estas imagens, independente da sua qualidade técnica durante o manuseio do objeto tecnológico, vêm dominando as relações comunicacionais nas “redes” e com o passar do tempo a fotografia está provando que a melhor forma de fisgar a atenção das pessoas é estando nas “redes”. Mas uma pergunta que paira no ar (ou não)… O que exatamente é REDE?

Para Musso (2004), “a rede é uma estrutura de interconexão instável, composta de elementos em interação, e cuja variabilidade obedece a alguma regra de funcionamento”, que busca a conexão dos pontos para além do não lugar ou do lugar, do estar presente ou não, o importante é que as relações entre as coisas aconteçam dentro das estruturas de forma fluida ou não, independente da sua complexidade, sua ligação social, estética (fotografia) e linguística, dentro do tempo e do espaço rede – campo onde a socialização, a comunicação e a política circulam, ganhando corpo e novas proporções a partir de suas dinâmicas, trocas, diálogos e compartilhamentos.

Imagine você compartilhar uma fotografia no Whatsapp de algum parente e essa fotografia, sem você saber ou autorizar, vai parar no grupo do Whatsapp da família e ao mesmo tempo no Instagram, no Facebook ou em qualquer outro meio, e ainda receber comentários e curtidas de pessoas que não estavam presente no momento em que a foto foi tirada? E agora? O que fazer com esse contexto ampliado onde a relação é onipresente? “Ao examinarmos os primeiros efeitos das redes como a internet, deduz-se que o crescimento do transporte da presença traduz-se umas desterritorialização concebida como colocação do território entre parênteses, ou até como sua negação” (WEISSBERG, 2014, p. 117).

Com a manipulação dos aparelhos tecnológicos cada dia mais prático, o acesso às imagens de forma instantânea, com a facilidade de visualização em qualquer suporte e a opção entre o armazenamento ou a publicação da mesma nas redes, acabam tornando a produção e a difusão das imagens (fotografias) mais acessível.

É impossível considerar que o uso das Redes (sociais) nos possibilitam novas formas de interação tecnológica e social. Tendo como exemplo o Facebook, como um objeto de observação, uma plataforma que dispõe de características que permitem publicações, além das informações pessoais e eventos sociais, os acessos aos conteúdos diversos presentes nas redes como hiperlinks, a postagem das fotos como um meio de comunicação e troca de informação por meio de imagens.

As dinâmicas vivenciadas pelo uso diário das redes sociais  ainda tem muito a ser pesquisado. Os compartilhamentos das fotografias nas redes, como modo de acesso ao presente de forma instantânea no mundo virtual, cria uma interação entre os seus usuários. Estas fotografias agem como forma de comunicação e socialização, sendo um fator que compreende a relação tempo e velocidade da ação local, na forma de compreensão de tempo, o que faz com que o tempo advindo das tecnologias seja marcado pelo presente. “Uma observação mais flexível permite lançar a hipótese de que, longe de dissolver a importância da localização, as redes só fazem aumentá-la” (WEISSBERG, 2014, p. 117).

De fato, é cada vez mais notável a necessidade das pessoas estarem ligadas às redes, aos meios, compartilhando em público suas experiências de vida, de serem percebidas dentro das suas estruturas sociais mesmo não estando presente fisicamente, mas alimentando-se com o prazer de estar conectado e emitindo conteúdo. Sendo assim, só é possível entender as tecnologias da comunicação, seu poder de alcance, a partir das mensagens, dos efeitos e dos recursos de mediação utilizados.  

Será que reconhecemos que ao mesmo tempo que estamos nos envolvendo com os avanços tecnológicos isso também têm provocado na sociedade um afastamento progressivo dos indivíduos e das referências com o tempo e com o espaço? Quando se fala sobre ciberespaço o que nos remete de antemão é a ideia da ausência, de algo não físico/real, um lugar distante de concepção subjetiva, do tempo e espaço virtual.

Por fim, as redes sociais, seus meios e o uso da internet continuarão a modificar as nossas formas de se relacionar, de ser e estar presente na dinâmica mundo – Musso (2004) chamou de “uma prótese técnica de utopia social” –  porque não dizer, de ser e estar presente na dinâmica de dois mundos: o digital e o real? Ou de um terceiro mundo, que seria a hibridização dos dois?

Por Laís de Oliveira e Lucas Cerqueira

*As referências que nos inspiraram podem ser encontradas em BIBLIOGRAFIA


A luz há de chegar aos corações

Boulevard du Temple, Paris, 3rd arrondissement. Uma cena urbana capturada por um Daguerreótipo em 1838 ou 1839. (Louis Daguerre)

No livro Profanações, Giorgio Agamben encadeia ensaios sobre temas de estética, literatura e filosofia. Em um deles, O Dia do Juízo, resgata uma imagem do início da fotografia.

“Certamente é conhecido o célebre daguerreótipo do boulevard du Temple, considerado a primeira fotografia em que aparece uma figura humana. A chapa de prata representa o boulevard du Temple fotografado por Daguerre da janela do seu estúdio, em horário de pico. O boulevard deveria estar cheio de gente e de carroças e, contudo, porque os aparelhos da época necessitavam de um tempo de exposição muito longo, não se vê absolutamente nada de toda essa massa em movimento. Nada, a não ser uma pequena silhueta preta sobre a calçada, embaixo e à esquerda na foto. Trata-se de um homem que se fazia engraxar as botas e que, por isso, ficou imóvel bastante tempo, com a perna mal e mal erguida para apoiar o pé sobre a caixa do engraxate.

Eu não conseguiria fantasiar uma imagem mais adequada do Juízo Universal. A multidão dos humanos — aliás, a humanidade inteira — está presente, mas não se vê, pois o juízo refere-se a uma só pessoa, a uma só vida: exatamente àquela, e não a outra. E de que maneira aquela vida, aquela pessoa, foi colhida, apreendida, imortalizada pelo anjo do Último Dia — que é também o anjo da fotografia? No gesto mais banal e ordinário, no gesto de fazer-se engraxar os sapatos! No instante supremo, o homem, cada homem, fica
entregue para sempre a seu gesto mais ínfimo e cotidiano. No entanto, graças à objetiva fotográfica, o gesto agora aparece carregado com o peso de uma vida inteira; aquela atitude irrelevante, até mesmo boba, compendia e resume em si o sentido de toda uma existência”.

Da objetiva à proliferação de câmeras aconteceu um século. As considerações atuais sobre a predominância da imagem e do espetáculo, como os lapsos ampliados de atenção das pessoas, ativa alguma nostalgia sobre o final do trecho de Agamben. O peso e o compêndio realizados por uma fotografia deixaram de existir? Talvez, pelo motivo de que a contagem – “uma” fotografia – deixou de fazer sentido.

Em paralelo, os julgamentos ativados e dependentes da circulação das imagens, presentes a cada dia nos dispositivos de comunicação, desmantelam a força que o filósofo italiano reconhece em uma foto singular. A própria singularidade das imagens, perseguida em campeonatos de fotografia ou perseguida através de legendas, depõe alguma melancolia possível nas relações atravancadas entre pressa e lentidão.

(O título vem da canção Juízo Final, de Nelson Cavaquinho)

Texto por Pedro Oliveira

Fotografia. A arte da luz!

A fotografia pode ser percebida em todos os lugares e em todos os momentos. Mas, afinal, qual a origem da fotografia?

A palavra fotografia tem origem do grego phosgraphein, que significa literalmente “marcar a luz”, “registrar a luz” ou “desenhar na luz”. Formada a partir da junção de dois elementos: phos ou photo, que significa “luz”, e graphein, que quer dizer “marcar”, “desenhar” ou “registrar”.

Fotografar é desenhar com luz, e isso só se tornou possível pela ação direta da luz em contato com um ambiente escuro e fechado, o que nos traz a teoria da fotografia e a Câmara Escura. A fotografia nos mostra como uma sociedade dependente da foto/registro, uma sociedade imagética, onde em todos os lugares podemos perceber que a foto é claramente um meio de comunicação. Assim já dizia o ditado, “uma imagem vale mais que mil palavras”.

Por esta razão, iniciaremos o conteúdo do Blog Fotografia, Comunicação e Tecnologia falando um pouco mais de sua origem e como essa forma de linguagem nos cerca na atualidade. E para entender um pouco mais sobre o assunto, partimos do princípio dessa tecnologia.

Foi em Paris, no ano de 1826 que Joseph Nicéphore Niépce, uma das primeiras pessoas a conseguir “imprimir” a luz em uma superfície sem usar qualquer tipo de tinta, porém as imagens desapareciam depois de um tempo. Ele usava uma câmara obscura, parecida com o que conhecemos hoje por pinhole e um tipo especial de papel com cloreto de prata.

Câmera obscura

Em 1824 ele conseguiu encontrar um método que permitia mais duração das imagens e em 1826 foi registrada a primeira fotografia de duração indefinida (imagem abaixo), que existe até hoje. Como é possível perceber, no entanto, a qualidade ainda era baixíssima; além disso, o processo todo de captura levava horas.

primeira foto da história (Foto: Joseph Nicéphore Niepce)

O nascimento da fotografia e seu aperfeiçoamento, entretanto, é dividido entre outros estudiosos da área, entre eles estão os mais citados:  Josef Petzval, Talbot, Clerk-Maxwell, Florence, Louis-Jacques Mande Daguerre, tendo este último se associado a Niepce em 1829, descobrindo – por acaso – um agente revelador que, exposto em uma chapa revestida com prata e sensibilizada com iodeto de prata, trouxe luz a imagem. Assim, nasce o daguerreótipo, invento muito difundido pela Europa e Estados Unidos.

Ao pensar na construção simbólica e social do mundo, podemos incluir nela a linguagem fotográfica dentro desse processo, na relação da foto com a realidade e como ela contribui para essa modificação ao longo do tempo, a partir da observação, interpretação e elaboração do ambiente em que se cerca.

“O caráter artificial da comunicação humana (O fato de que o homem se comunica com outros homens por meios de artifícios) nem sempre é totalmente consciente. Após aprendermos um código, tendemos a esquecer a sua artificialidade: depois que se aprende os códigos dos gestos, pode se esquecer que o anuir com a cabeça significa apenas aquele “sim” que se serve desse código” (FLUSSER, 2007, p. 90).

A comunicação humana permite a constante produção/emissão e recepção de sentido, o viver da experiência simbólica do mundo entre os homens e as coisas. Sendo assim, a partir dos aparatos tecnológicos (os aparelhos fotográficos), e suas funções comunicativas dentro da sociedade, nos engajamos ao desafio de pensar um pouco mais sobre a fotografia, suas linguagens e sua relação com o mundo e com a comunicação.

“A comunicação humana aparece aqui como propósito de promover o esquecimento da falta de sentido e da solidão de uma vida para a morte, a fim de tornar a vida vivível. Esse propósito busca alcançar a comunicação, na medida que estabelece um mundo codificado, ou seja, um mundo construído a partir de símbolos ordenados, no qual se represam as informações adquiridas” (FLUSSER, 2007, p. 96).

Sem essa troca entre emissor e receptor não há sentido para a existência das coisas, o registro fotográfico ao informar o sujeito ou algum grupo social, seja de cultura distinta ou não está cumprindo com o seu papel de formação conceitual e de sentido com relação ao objeto que está representando através da imagem.

Sendo assim, a fotografia ao dar forma imagética aos seus registros, ao criar signos, a partir da mediação entre o sujeito e a máquina fotográfica, passa a ocupar um lugar importante dentro da comunicação social.   

Por Laís de Oliveira e Lucas Cerqueira

*As referências que nos inspiraram podem ser encontradas em BIBLIOGRAFIA